O HISTORIADOR

Acervo & Memória Urbana
Biografia calendar_month 17 de abril, 2026 visibility 10 LEITURAS

MITOTONIO

MITOTONIO
👁️ Registro Público
Acervo: Post de Consulado Alvinegro Granja-Ce - Facebook

“Mitota” . Esse era o seu apelido nos tempos de Granja. Nascido na antiga Rua da Lagoinha – atual Rua Cel. José Elias - em 22 de fevereiro de 1916, filho de José Augusto dos Santos e Maria Cipriano dos Santos, o garoto tímido, de poucas palavras e olhar cabisbaixo, desde cedo demonstrava finada técnica com a bola nos campinhos de futebol da cidade.

Seu pai era barbeiro, e mantinha como local de trabalho uma cadeira improvisada à sombra de um Tamarindeiro ao lado do velho Mercado Público de Granja. Sua mãe era lavadeira de roupas. Diariamente saía cedo de casa equilibrando na cabeça volumosas trouxas de roupas com destino ao Rio Coreaú para a lavagem primitiva de roupas. Sem ter como levar o filho ainda pequeno à tiracolo, deixava a criança sob os cuidados de sua madrinha Joana da Silveira e a Rita da Silveira, para somente à boca da noite recolher o pequeno para o pernoite em sua casa. A convivência diária foi gerando laços afetivos entre a criança e as cuidadoras o que resultou na sua permanência definitiva e adoção com o sobrenome da família adotiva: Antônio Edgar da Silveira.

As irmãs Joana e Rita moravam numa uma casinha humilde, de fachada branca e teto baixo na Rua Tiago Ribas, próximo ao aterro da estrada de ferro. Joana, a quem Mitotônio chamava carinhosamente de “Inhom”, era professora leiga, mais uma cegueira precoce lhe impediu de continuar lecionando. Alegava que era consequência dos longos anos que lecionou à noite, à luz de lamparina. Rita, sua irmã, sobrevivia da fabricação de rendas e bicos que ela produzia artesanalmente manejando bilros com maestria entre tramas com fios de linhas sobre uma almofada.

Desde o tempo de molecote Mitotônio começou exibir seu futebol vistoso, de afinada técnica, dribles rápidos e chute forte certeiro. Certo dia, quando jogava no largo por trás do velho mercado público de Granja, onde acontecia as principais competições do futebol local, o desportista granjense Lauro Pessoa Martins o convidou para ingressar no Fortaleza. Poucos dias depois o craque embarcou no trem com destino a Capital deixando em sua casa muita saudade e apenas um retrato em preto e branco na parede.

Era 1937. Fortaleza era uma cidade pacata, de poucos automóveis nas ruas. Os deslocamentos das pessoas eram feitos nos bondes elétricos da Tramways Light e o futebol ainda era praticado em formato amador, por isso Mitotônio ingressou no Fortaleza sem contrato formal. Embora atuando de maneira discreta, Mtitonio (ainda com o apelido Mitota) foi Bicampeão Cearense em 1937-1938. Foi uma época difícil para o jogador que morava de favores na casa de amigos. Sem salário fixo, nos dias de quebradeira eram os amigos “quebravam um galho” emprestando-lhe alguns.

Mitotônio costumava segredar aos amigos íntimos o desejo de jogar no Ceará, seu time de coração. O segredo caiu nos ouvidos do seu conterrâneo Luiz Torres Gouveia, granjense radicado em Fortaleza, servidor público do antigo Departamento de Obras Públicas, que por sua vez mantinha estreitos laços de amizade com o Capitão Juremi Pires de Castro e o Gotardo Moraes, ambos influentes diretores alvinegros.

Assim, em 1940, ano da profissionalização do futebol cearense, o presidente alvinegro Oscar Jansen Barroso monta um elenco competitivo e Mitotônio assinou seu primeiro contrato profissional no Ceará, sagrando-se Bicampeão Cearense em 1941e 1942, fazendo parte do quinteto de ataque possantíssimo juntamente com Idalino, Jombrega, França e Hermenegildo. Suas jogadas, seus dribles insolentes e eu chute forte apelidado de “tijolo quente”, fazia vibrar a massa no Estádio Presidente Vargas, e de gol em gol o artilheiro foi ganhando simpatia da torcida.

Nessa mesma época brilhava nos estádios sul-americanos o lustroso futebol do argentino Masantonio, artilheiro do Huracán e da Seleção albiceleste. A imprensa esportiva cearense, eufórica, comparava as qualidades dos dois craques promoveu a junção dos dois nomes e assim nasceu o cognome Mitotônio, nome que o consagrou o nosso ídolo.

Na mesma época o mundo vivia tempos de terror com a Segunda Guerra Mundial, acontecimento que marcou a história da humanidade e impediu a realização das Copas do Mundo de 1942 e 1946. A Europa estava debaixo de pólvora e o Brasil vivia sob tensão, o que obrigou o cancelamento de importantes competições nacionais, fato minguou as chances de Mitotônio exibir seu talento nos grandes centros esportivos do país e alcançar patamares mais elevados na sua carreira. Mesmo sendo aquela uma época em que as transações dos jogadores eram difíceis, ele chegou a ser pretendido por grandes clubes brasileiros como Botafogo, Vasco da Gama, Fluminense e o Corinthians Paulista.

Em 1944, na gestão do presidente João Batista Furtado, houve uma divergência entre diretoria alvinegra e a Federação Cearense de Futebol, o Ceará não participou do Campeonato Cearense por alguns anos. Com o clube fora da competição, Mitotônio foi emprestado a peso de ouro ao Náutico Clube Capibaribe, onde conquistou o titulo de Campeão Pernambucano em 1945. Com o retorno do Ceará ao campeonato cearense, Mitotônio retornou ao Ceará sendo novamente Campeão Cearense em 1948.

Foi uma época de gloria. Sua fama e popularidade trazia orgulho aos granjense. A notícia das suas visitas nossa cidade causavam euforia. Todos queriam ver o ídolo de perto. A locomotiva, carregando na sua plataforma a bandeira alvinegra, ao se aproximar da cidade anunciava sua chegada aos estridentes apitos. O maquinista tinha autorização para estacionar o comboio fora da Estação Ferroviária, dando a Mitotônio o privilégio de desembarcar no aterro da linha férrea, a poucos passos da casa da casa sua família.

Mitotônio nunca negou seu amor à família a terra onde nasceu. Revelava que quando que sempre relembrava seus tempos de infância, das peladas com bola de meia, das vadiagens, das correrias de pés descalços caçando passarinhos com baladeira, dos mergulhos nas águas revoltas do “Coreaú”.

Mas o final da sua vida não foi tão feliz e glorioso quanto foi sua carreira profissional. No dia 31 de março de 1951, em uma partida contra o Gentilândia no Estádio Presidente Vargas, após deixar sua marca logo aos 6 minutos de jogo, Mitotônio desaba em campo alegando forte dor de cabeça, vomitando bastante. Foi levado às pressas para a Assistência Municipal, principal pronto-socorro médico de Fortaleza na época, onde permaneceu em observação, recebendo alta hospitalar ainda no mesmo dia.

Durante a madrugada, em casa, passou mal novamente, vindo a falecer subitamente. Era 1º de abril de 1951. Naquele dia o craque tanto driblou seus adversários não conseguiu driblar a morte e foi dar volta olímpica com os anjos do céu. O trágico acontecimento abalou o cenário esportivo cearense causando comoção à torcida alvinegra. A notícia chegou a Granja pelos fios do telégrafo da Estrada de Ferro, único meio de comunicação na época. Como a data era 1º de Abril, conhecido como o “Dia da Mentira”, houve quem duvidasse a veracidade do fato, achando que seria apenas uma brincadeira de mau gosto.

O fato de o jogador ter vomitado em campo fez surgir um boato danoso que ele havia ingerido uma panelada no almoço, e que a ingestão daquela iguaria teria sido a causa de sua morte, no entanto o Atestado de Óbito aponta como sendo a verdadeira causa de sua morte Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Em sua homenagem o nosso Estádio Municipal recebeu o seu nome: “Estádio Mitotônio

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