Documento #6
12 Apr, 2026
A cidade e o povo
A cidade não é um lar, é uma mandíbula de concreto que nos mastiga diariamente com a delicadeza de uma britadeira em jejum. Acordamos para o ritual sagrado de sermos empilhados em latas de metal sobre trilhos, onde o suor do vizinho é o perfume oficial da sobrevivência urbana, enquanto o asfalto — esse tapete preto que esconde a terra que um dia ousamos pisar — serve de palco para uma coreografia de impaciência coletiva. Buzinamos para o vazio, xingamos o tempo e compramos garrafas de água mineral para fingir que ainda pertencemos à natureza, enquanto nossos pulmões se adaptam, por pura teimosia biológica, ao tom cinza-fuligem da existência. É fascinante observar como a arquitetura da metrópole espelha a nossa misantropia gourmet: construímos prédios com nomes franceses e cercas elétricas de alta voltagem para nos protegermos justamente das pessoas com as quais compartilhamos o código de área. O povo, essa massa amorfa que a sociologia adora romantizar, transformou-se em um exército de sonâmbulos digitais que tropeçam em buracos reais enquanto caçam validações virtuais em telas de vidro. A ironia máxima reside no fato de pagarmos o IPTU mais caro da região para termos o privilégio de desviar de calçadas esburacadas e ignorar, com uma elegância quase olímpica, o mendigo que resolveu atrapalhar o fluxo estético em frente à vitrine de uma loja de grife "sustentável". No ápice dessa distopia de cimento, percebemos que a cidade não foi desenhada para abrigar vidas, mas para otimizar o fluxo de um capital que nos usa como pilhas descartáveis em um tabuleiro de sombras. Somos os figurantes de um filme de baixo orçamento onde o vilão é o relógio e o único herói possível é o ansiolítico tomado às pressas antes da próxima reunião de metas irreais. O asfalto não tem memória e o concreto não tem ouvidos; somos apenas ruídos temporários em um labirinto que continuará de pé muito depois de sermos varridos pela próxima tempestade de verão. A cidade é um espelho quebrado onde insistimos em procurar nossa dignidade.
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Por: Liana Angelim